Publicado por: Danilo Regi | novembro 5, 2011

Scientia Vinces e o Universo restringido

Lendo um montão sobre as discussões de se a Polícia Militar deve ou não entrar e policiar o campus da Universidade de São Paulo, eu gostaria de contribuir com algo que acho básico, base, mas que estranhamente não vi à mesa da discussão até agora. Estou sentindo a falta de idéias nessa discussão. Calma! Não estou chamando os interlocutores de burros por tabela… com “idéias” estou evocando o mundo ideal, pois é nele que devemos mirar quando a realidade vira novamente uma bagunça, é pra lá que olhamos e falamos, opa!, era pra esse lado que nós estávamos indo… eis a direção que devemos seguir.

E qualé essa direção na USP?

Taí, a USP é um caso emblemático, posso citar a Universidade de São Paulo tranquilamente porque de forma ideal, ela definiu, claramente em uma sentença inequívoca, a sua finalidade e também meio.

A Universidade de São Paulo e seus membros formados ou em formação não vencerão pela força da criação da lei,

Eles… não vencerão com base em julgamentos fundamentados na lei,

Eles tão pouco vencerão pela ação, pela execução de tais normas…

A USP indica que ali, dentro daquele Universo, qualquer um só poderá vencer pela ciência.

Scientia Vinces – eis o lema da USP, algo que no latim significaria “pela ciência vencerás”. Note, não há qualquer ambiguidade, não nos resta qualquer dúvida. Jamais um membro forjado ali, naquele Universo, poderá vencer pela arma, pela ludibriação, ele só conseguirá fazê-lo por meio da ciência.

Nem todas as Universidades Públicas brasileiras foram tão felizes ao levar, já de cara, de chofre, o meio e fim a que vieram. As Universidades correm, atuam, a parte de quase tudo, elas foram criadas, sim, por outros dois poderes e obedecem, sim, ao julgamento do terceiro, mas estão e são independentes de qualquer pressão de todos e cada um deles.

Assim o conceito de universidade foi forjado – por volta de 1150, na Europa – e até então não encontramos modelos igualmente eficazes que, por meio da ciência, promovam mudanças contínuas para o bem da sociedade. Também não poderia ser diferente, se a Universidade se subjugasse ao Executivo ou ao Judiciário ou ao Legislativo o seu gigante – porém frágil – Universo sofreria um duro golpe, pois a ciência ideal é sempre imparcial (dentro dos limites da nossa condição humana). Sempre. Não é à toa, que, dentre outras pautas, vez e outra você vê os docentes e discentes se queixando da influência do mercado sobre as linhas de pesquisa da Universidade, porque essa influência pode romper com aquela máxima da independência do pensamento acadêmico.

Mas o que a Polícia Militar tem com isso?

Ao que parece, tudo. A Polícia é um instrumento ligado a um dos poderes, o Executivo. Portanto pode facilmente deturpar todo o meio e fim da USP, e de qualquer outra Universidade Pública. Pode chegar lá e vencer pela arma (pelo canhão, como ouvimos em hinos de algumas nações). Notem, os policiais enquanto a paisana, não estão barrados ao interior da USP, ninguém o está. Nesse Universo, só o que deve ficar de fora são as suas armas de fogo ou de qualquer outro tipo. Isso se dá para que a ‘briga’ seja igualitária, pareia, justa! Ideias contra ideias, cujo resultado será a inovação. É por esse confronto que a USP preza, é para isso que ela existe.

Mas a Universidade tem sim uma grande restrição! O seu enorme poder, a ciência, não corre livre e solto. Ele não pode ‘mirar’ qualquer coisa com seus potentes ‘canhões’ capazes de mudar realidades, gerar inovações… Ele se encontra subjugado ao fim maior de quem lhe mantêm, a sociedade. Os outros dois poderes que a criaram, é claro, tomaram o cuidado de dar a destinação correta – por força de lei – ao poder científico da Universidade Pública.

Era necessário que se subjugasse o Universo do saber de alguma forma, pois senão ele poderia virar-se, por exemplo, para o desenvolvimento de armas atômicas, ou pura e simplesmente para benefício de uma pequena porção da sociedade. Mas não, é para o bem da sociedade! Essa é a única restrição desse Universo.

É interessante por hora notar que – embora intrínseco ao meio universitário definido lá atrás – o desarmamento de tudo que não sejam idéias não se dá só dentro da Universidade. Também são proibidas armas nas Assembléias Legislativas, notem que nem os policiais militares, que as guardam internamente, carregam armas. E vem cá, seria possível a presença de sujeitos armados em um julgamento justo num tribunal? Claro que não!…

A noção é simples e a sabemos desde criança. As ideias são muito poderosas, mas de chofre, nada podem, a queima roupa, contra a força injusta da pólvora mais chumbo. Nem precisa tanto… quantas vezes na infância não te deram um safanão pra ficar quieto!? Calaram as suas ideias…

Não tínhamos que ir muito longe para jogar luz sobre a questão “PM no campus”, a resposta já estava lá, desde o surgimento da USP: não é pela arma, é pela ciência que vencerás!

Essa noção, inata a instituição USP, já foi muito mais óbvia e clara para os seus temporários membros, em tempos de ditadura. Nesse período, estava claro que a polícia e o exército obedeciam a um dos poderes e adentravam o campus universitário para fazer calar o mundo dos argumentos, das idéias. Simples! Era por que esse mundo discutia esse poder e mostrou por A+B que ele não era o melhor para a sociedade.

Mas a história continua e a USP vai seguindo bem nos seus trilhos, seus membros olham aqui, olham ali, estudam, inspecionam e vão apontando: Ei! mais pistas para a marginal Tietê não é a melhor solução; São Paulo precisa de mais transporte público; a defasagem em linhas de metrô é de X km/ano; o padrão de TV Digital mais adequado para o Brasil seria o Y, por tais argumentos; a Polícia Militar paulista está inadequada, pois matou mais que toda polícia americana…

As idéias não param! Vivem avaliando – também se avaliando – e trazendo, apontando inovações. Inovações que muitas vezes constrangem os membros dos 3 poderes constituídos, oras, que, loucos da vida, esbravejam! Eles podem! Mas aqui, dentro da Universidade, só podem se vierem munidos de idéias. De comprovadas idéias. E só.

Agora que demos uma olhada no mundo ideal, puxado pelo lema da USP “Scientia Vincis”, vamos ver se há algum exagero. Será que o Executivo poderá influir na USP?

Os tempos de ditadura nos deram muitos exemplos, comprovamos por lá, mas e hoje?

Não faz muito tempo, foi no ano de 2007.

Vindo do poder Executivo, num decreto, em uma canetada sem discussões, o governador da época decidiu alterar toda a ordenação de idéias da Universidade de São Paulo. Muito estranhamente ele decidira (entre outras coisas) que a partir daquela canetada, quem decidiria o que era idéia que receberia mais verba (pesquisas operacionais) e o que receberia menos verba (pesquisas de base) seria, nada menos, do que a secretaria dele, o próprio executivo.

Visto que o regime já era democrático, talvez nunca se vira antes um absurdo tão redondo, tão perfeito!

Mas a USP o encarou, não pelos adjetivos que eu acabo de colocar (nada imparciais). A Universidade o encarou como sempre fizera com qualquer matéria. Ela pôs-se a questionar, testar, medir resultados. Como seria uma Universidade Pública em que as pesquisas de base são deixadas de lado em prol das operacionais?

Seus mestres, doutores e livre-docentes não demoraram muito pra se lembrar da pesquisa de base que levou ao desenvolvimento do transistor (hoje presente em quase todos os equipamentos eletrônicos) e logo foram pipocando mais e mais casos exemplares… a USP reuniu um montão de idéias e rechaçou fortemente e bravamente a tolice daquele governador. Fez o que tinha de fazer, falou: não senhor! Seguindo por aí, a sociedade perde! O senhor está errado!

Mas dessa feita o Universo das idéias foi obrigado a lutar! Por isso eu disse ‘bravamente’, pois o errado governador colocou, de forma injusta e desmedida, contra as idéias da Universidade Pública, a força das armas que encontrou à disposição. E foi um Deus nos acuda em termos de ocupação e mobilizações (todas desarmadas, movidas por ideais) para poder gerar pressão suficiente que fizesse o governador admitir e apagar a tolice do texto legal que ele mesmo assinara.

Eis uma das histórias que acho mais emblemática para exemplificar como a USP pode ser ameaçada. Aliás, ela o é sob muitos outros pontos de vistas e devemos lutar contra todos eles. Porém, quando falamos na Polícia Militar, estamos lidando com um outro ente muito mais poderoso, o Executivo. Embora ele seja contra balanceado pelos outros dois poderes, mesmo assim, consegue muitas vezes ameaçar o mundo das idéias que é tão caro para as inovações e melhorias que a nossa sociedade precisa.

Quem ainda não se cansou nesse calmo texto deve estar se perguntando: ué, mas e a violência? E o roubo? E aquilo que se concretiza nas ocorrências policiais que vemos no campus!? Eles não restringem o pensamento? Não o constrangem, gerando medo e mesmo ceifando a vida?

Sim. E já foi dito, o mundo das idéias é bem frágil, qualquer perturbação pode deturpá-lo, como num ruído em meio a um jogo de xadrez. Mas se vimos que a solução não se dará pela polícia, então como faremos?

Não à toa, no campus existe uma Guarda. Senhoras e senhores das idéias, atentem a palavra que lhe dá nome, é “guarda”, o intuito é de guardar, de resguardar, de proteger, não o de policiar.

A opinião do integrante da USP que lhes escreve é a de que a Guarda Universitária deveria ser bem reforçada, deveria dar conta do campus. Mas, deixando a minha opinião de lado, outras medidas são sugeridas em outros foros. Por exemplo, abrir e iluminar o campus, o tanto quanto possível – dizem os integrantes do movimento estudantil – dentre outros – que é por aí que passa a solução.

Mas quem mesmo poderá apresentar uma solução mais adequada por A+B é a própria USP. Vamos discutir como resolver a questão da insegurança no campus! A USP serve pra isso. Para os membros das comunicações e artes (ECA), fica até mais fácil, é só cruzar a rua e trocar uma idéia com o pessoal que vem, há anos, estudando as causas, consequencias e tudo ligado a violência… vamos envolver o pessoal do NEV (Núcleo de Estudos da Violência). Vamos envolver todos os demais pensadores da USP e ver o que eles têm a dizer sobre isso. Será que precisarão de mais tempo de pesquisa? Então vamos abrir o espaço para ela! A USP tem autonomia e é para isso. A Universidade está aí para avaliar os diversos aspectos da sociedade e se não tem habilidade ainda, abre novas fileiras de pesquisa (o que acho que não é o caso para essa questão). É pra isso que ela serve e, por favor, é nisso que ela é capaz. Olhar, refletir e encontrar soluções.

Talvez a minha solução não seja a mais adequada, só pra finalizá-la gostaria de dizer que, na minha opinião, os gastos com a guarda, mesmo que relativamente altos, são despesas essências para a manutenção desse incrível universo USP. Mais importante!  – A USP – hoje deturpada por um reitor que não está mais agindo movido pelo reino das idéias de eficácia acadêmica –, a USP deveria servir de exemplo com uma guarda que não resulte em mais violência e muitas mortes como a Polícia Militar paulista. A guarda universitária poderia e deveria ser um protótipo de como uma “polícia” deveria agir na sociedade. Notem, obrigada pela canetada do reitor, a USP está deixando de inovar num assunto muito caro a sociedade. Novamente, a Polícia Militar paulista já matou, em cada um dos últimos 5 anos, mais gente que todas as polícias norte-americanas juntas… quer tema mais básico a ser discutido? Está mais do que na hora do mundo das idéias se rebelar – como fez daquela feita dos decretos – contra a canetada do reitor e dizer: não senhor! O senhor errou!

Nesse parágrafo aqui do texto, caberia uma enorme explanação, ligando os pontos dessa história que dentre outros envolve, PM, executivo, governador, reitor, campus, eleições, protestos, pois os sucessivos reitores da USP não vem “errando” na questão da PM no campus por mero acaso (lembremos da reitora que precedeu o atual reitor). Eles são escolhidos de forma extremamente restrita dentro da USP em número de três e, absurdamente, depois, um é escolhido pelo governador. Em resumo, como vimos, o próprio reitor representa um desbalanço e uma ameaça ao Universo de idéias USP. E o mundo das idéias já se cansou de mostrar por A+B que essa distorção precisa ser corrigida, pois gera danos a sociedade. Numa digressão, eu vou me lembrar da Universidade do Vale do Sapucaí, lá de Pouso Alegre (MG), cidade em que cresci. Naquela Universidade privada, bem mais nova que a USP, a escolha do reitor se dá por 60% de docentes, 20% de alunos, 20% de funcionários. Não sei se essa é a divisão ideal, mas é vastamente mais democrática que a da USP. A Univás e muitos outros Universos de Idéias, Brasil a dentro, tem bastante a ensinar pra USP em termos de gestão mais democrática e transparente… e os resultados, a USP vive infelizmente colhendo… somos nós aqui nos engalfinhando por conta da canetada errada reitorial.

Que tal agora resolver a questão à moda USP? Que tal pôr seus entes pra dialogar e expor o que andam estudando sobre a questão e caminhos para solução?

Por tudo isso, só lhes peço esse favor, caros amigas e amigos, discutam, essa é nossa verve e a força de nossas Universidades Públicas, mas jamais entreguem as nossas ideias, jamais as subjuguem à força das armas. Este brilhante Universo, se assim restrito, perecerá.

…(só) pela ciência,
vencerás.

Danilo Regi de Almeida
formado pelo Jornalismo da ECA-USP em 2009


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